Enquanto achamos a vida de herói norte americano um máximo, deixamos de olhar para o lado, nosso vizinho, um trabalhador transeunte. Personagem com a vida tão agitada quanto a de um seriado estrangeiro.
Os Jorges, Franciscos, e os mais conhecidos Josés, lutam diariamente contra inimigos com um poder de destruição bem maior que o de uma bomba atômica. Eles acordam, levantam, tomam seu banho antes mesmo de o sol nascer. Caprichosamente fazem a barba com sua lâmina de barbear, velha e surrada, tão antigas que poderiam estar no museu. Quase um ritual espiritual de quem se prepara para o pior, aliás o primeiro de seus piores problemas, a ausência de comida no prato seu e no de seus filhos. Quando disse que bomba atômica era menos destrutiva, me referia a fome, enfraquecendo corpos, destruindo almas, de forma silenciosa.
Triste é conhecer o que se passa na cabeça de nosso personagem, “ah já me acostumei”, isso não o impede de levantar e rumar a sua segunda batalha, como virou moda dizer “brasileiro não desiste nunca!”. Sai de casa, um bairro simples, com muitos inimigos espalhados, esses que em sua infância costumava chamar de amigos. Antes parceiros de “pelada”, hoje concorrentes na guerra desleal para ter o que comer. Alguns partiram para a margem da sociedade, transformando-se nos conhecidos marginais.
Sobrevivendo a segunda batalha, corre para o seu caminhão de combate, ou seria condução, cheio de outros guerreiros sedentos por aventuras e combates em terras distantes. Ao chegar, depara-se com um imenso sargento, de nome engraçado, Patrão. Gritando e esbravejando o sargento passa as ordens aos soldados e completa, “quem não tiver força de vontade, garra, e gastar todas as suas energias trabalhando hoje aqui, não precisará voltar amanhã”. Que força seria essa? A física, proveniente dos alimentos que a muito só restaram na memória de nosso herói. Retirando forças de onde não existia, mais um dia se completa, chega a hora de receber a esmola do dia, ou seria pagamento? No retorno do herói de guerra, no mesmo caminhão que o trouxe, o homem, mais morto do que vivo, para com o objetivo de comprar algum arroz com feijão qualquer, continuando depois uma caminhada até o formoso lar. Não desmontou nenhuma bomba para salvar o país, apenas salvou mais uma família, a sua, do abandono dos “Warlords” que de 4 em 4 anos mentem, prometendo proteção a família do guerreiro durante o combate.
Por: Leandro Kovacs